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Jogo de cena (2007). Foto: Divulgação.

Jogo de cena e a arte da mimesis
Por Josiane Orvatich

Talvez o excesso de conceitos filosóficos me tenha feito optar por quase nunca querer me aproximar de nada que, no cinema, fosse teórico. Portanto, sempre procurei me levar por algo que chamarei de intuição (ou impulso) para compreender os filmes e a arte. Claro que, em meu pensamento, estas teorias e percepções acabam se misturando, pois não há como compartimentar o que absorvi dos filósofos para compreender o cinema através de categorias como a arte, a intuição, a beleza e a estética.

O personagem e sua tentativa tosca de imitar (de forma condensada, em algumas páginas de livros ou em algumas horas ou minutos de filme ou peça) a vida completa de um homem é o tema que me instiga e encanta em Jogo de cena (2007), de Eduardo Coutinho.

De todas aquelas mulheres a nos confundir com suas vidas – reais ou inventadas, reais ou narradas, o que não importaria, apesar de ser, aparentemente, o tema central do filme –, a que me forneceu uma chave de leitura, e que escapa a esta questão talvez central de questionar a veracidade ou não de uma interpretação-narração, é a aparição desastrada de Fernanda Torres.

A atriz na encruzilhada, sua incapacidade de interpretar, sua fragilidade diante do objetivo de simplesmente assumir a tarefa de repetir a história de outra, me revela aquilo que mais me encanta no homem: sua falência, imperfeição e impossibilidade. Aquilo que falha, quebra e desordena o sistema (sobretudo se for imprevisto) me exerce um fascínio superior e particular.

Parece-me que pude ver o processo de Fernanda Torres entrando em choque quando ela declara, timidamente, “que loucura, Coutinho”, desnudando a consciência do que é a arte de interpretar: “dá vergonha”, e nos faz pensar em qual o sentido de imitar a vida “acabada” de um homem completo diante de sua memória. Fernanda opta por ver o material bruto gravado para ter o máximo possível de “memória” daquela que ela deveria “interpretar” ou “imitar”. Interpretar talvez fosse, inclusive, criar outros trejeitos, mas o intuito ali parecia ser o de parecer, à moda de imitação, a dona da história.

Fernanda ainda declara: “parece que eu estou mentindo pra você”. A fraude da interpretação também aparece, sendo desvelada no momento em que Fernanda não consegue fazer aquilo que seria tarefa muito simples. Este “muito simples” é a maior complexidade de um ator, dizer coisas que não lhe pertencem, ou mais: ser quem ele não achava que era. “Quando fazemos um personagem fictício, nós é que damos a medida dele; mas uma pessoa real sempre nos mostra que não conseguimos chegar lá”. Com esta frase, mais ou menos dita assim, Fernanda Torres traz à tona todo o processo da interpretação – que a mim é o filme todo, não me importa neste momento direção e roteiro, e sim um estudo sobre uma parte (fundamental) das artes: a mimesis declarada pelo ator e sua impossibilidade. Platão quase pode ser compreendido ao julgar que os artistas são os homens mais fracos da polis: aqueles incapazes de acessar um mundo superior e que ficam presos num mundo de superficialidade e aparência: miméticos e sem Ser.

A quebra do jogo, apresentada no meio do filme com a participação de Fernanda Torres, me dá toda a dimensão de um diretor que sabe do risco de seu projeto, que é o risco de toda vida: que ele/ela não faça o menor sentido. Eis o homem absurdo: aquele que persiste no projeto de ser algo, ainda que este ser esteja em permanente autodestruição pela desconfiança que tem de si mesmo. A convicção de Andréa Beltrão me desconcerta depois de percebermos a falência do processo, e a primeira reação é dizer que Fernanda Torres estava “mal” no filme. Porém aqui, estar mal é justificar (ou criar) a essência do filme todo.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 000, junho/2008.


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