Loucos do Alabama (1999). Foto: Divulgação.Por Josiane Orvatich
Loucos do Alabama (1999) é a estreia do ator espanhol Antonio Banderas na direção de filmes. Banderas consolidou-se na carreira de ator em filmes de Pedro Almodóvar, como Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) e Ata-me (1990), seguindo carreira nos EUA e destacando-se em Filadélfia (1993) ao interpretar o namorado de Tom Hanks, um advogado que é demitido por ter contraído AIDS.
Banderas escalou sua esposa Melanie Griffith para o papel principal de seu filme. Griffith interpreta Lucille, vista do ponto de vista de seu sobrinho, Peejoe, um menino que, no verão de 1965 em que os fatos do filme se desenrolam, presencia o assassinato de um garoto negro e guarda o segredo que sua tia carrega na caixa de chapéu.
Nada a esconder do espectador. Antes mesmo dos créditos, Lucille diz: “Mamãe, eu o matei. Decepei a cabeça dele”, referindo-se ao marido que a proibia de alcançar o sonho de tornar-se estrela em Hollywood. Dois assassinatos vêm, portanto, ilustrar o tema da liberdade.
As duas histórias correm paralelas. Um grupo de garotos negros quer tomar banho na piscina pública da cidade. Piscina esta frequentada por Peejoe. O gerente convoca a guarda municipal e o xerife acaba por matar um dos garotos que tentava fugir. O desdobramento desse episódio é a manifestação dos negros da cidade, que tomam um banho noturno na piscina, liderados pelo pai do garoto morto.
O resultado é o soterramento da piscina. Igualdade para todos: ninguém mais a utiliza.
A história de Lucille é a de uma espécie de Salomé cuja sedução não serve para conquistar o objeto amado, mas para alcançar seu objetivo profissional de tornar-se atriz. Porém, não sem carregar a cabeça do marido para provar a ele do que ela é capaz – o que ela faz literal e cotidianamente, usando como suporte a caixa de chapéu. O toque humorado e de insanidade da personagem nos levam, ao fim do filme, a certa comemoração por sua absolvição pelo juiz – com a velha e surrada recomendação de frequentar um psiquiatra.
O filme assemelha-se muito a Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott, nas questões da liberdade feminina e sua conquista a qualquer preço, justificada pela atitude estúpida de homens estupradores ou que batem em suas mulheres e filhos. O júri em Loucos do Alabama condena Lucille e será criticado pelo juiz que a absolve. Em Thelma & Louise não há escapatória senão a fuga constante ou o abismo em que se atiram. A liberdade, para Ridley Scott, parece menos alcançável.
Também a liberdade feminina parece mais tolerável, mesmo que marcada por um assassinato – aqui não se pode deixar de relacionar com o período do Terror de Robespierre, durante a Revolução Francesa, em que a liberdade é conquistada na guilhotina.
O trajeto de cerca de dois mil quilômetros realizado por Lucille entre o estado de Alabama, onde mora, até Los Angeles, Califórnia, indica, talvez, a distância entre polos de liberdade que devem ser alcançados, como entre os brancos e negros no filme. Outra metáfora é a profissão de agentes funerários exercida tanto pelo pai do garoto negro assassinado quanto pelo irmão de Lucille – em que a sombra da liberdade parece mesmo ser a morte.
Ainda assim, com temas tão pesados, o filme é colorido e traz a visão esperançosa de Peejoe, como se ele representasse aquilo que devemos aprender num ritual de iniciação para não cometermos erros. Durante parte do filme ele fica caolho, ao utilizar um cortador de grama. Mas sua visão se recupera, é outra ao final. Uma visão de loucura como a de Lucille, que não compreende os limites de sua liberdade, mas que também não pode deixar de conquistá-la – e então, sua loucura torna-se a mais consciente decisão que um homem tem de si mesmo.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 008, junho/2009, seção Acervo Básico.